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Muito além do futebol: lições da Copa do Mundo para a educação

  • Foto do escritor: Amanda Helena
    Amanda Helena
  • 15 de jul.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 17 de jul.

Professor orientando crianças em um jogo de futebol, a mesma dinâmica de orientação vivida pelo professor em sala de aula.

A Copa termina, mas seus aprendizados permanecem. Descubra como o trabalho em equipe, a inteligência emocional, a diversidade e o respeito podem fortalecer a formação dos estudantes e enriquecer as práticas em sala de aula, a partir do contexto do campeonato mundial.

 

O que a Copa do Mundo tem a ver com educação? 

Quando a seleção brasileira virou o jogo e eliminou o Japão aos 50 minutos do segundo tempo, todo mundo vibrou e acreditou na superação, no crescimento e na evolução de um grupo que carregou uma nação inteira consigo nos últimos dias. Infelizmente, pouco mais de uma semana depois, foi a vez de um outro gol, esse aos 44 minutos do segundo tempo e feito pelo time adversário, adiar o sonho brasileiro de seguir buscando o hexacampeonato. Ambas as cenas já foram narradas em todas as línguas e seguirão sendo memórias marcantes da Copa do Mundo de 2026, especialmente para nós. Mas... o que isso tem a ver com EDUCAÇÃO?


Não é apenas um chute. Não estamos falando apenas de gols, vencer ou perder (e sabemos bem como dói!). Tudo acontece muito rápido dentro das quatro linhas e cada lance pode ter desfechos diferentes.  Numa situação, a vitória e a celebração. Em outra, a frustração e a decepção. Vemos as mãos no rosto, o corpo curvado, as lágrimas e o peso do sonho adiado. Cenas como essas fazem parte da Copa do Mundo. Vitórias e derrotas, torcida, aplausos e desafios fazem parte do dia a dia por lá. Mas o que nem sempre lembramos é que, em proporções diferentes, essas cenas também fazem parte da rotina escolar diária. O que podemos aprender com isso?



Sabe aquele estudante que erra uma resposta em voz alta? Ou que não consegue acompanhar o ritmo da turma? Aquele que é “massacrado” pelos colegas quando falha e prejudica uma atividade em grupo? Como não pensar também no estudante “supervalorizado” quando conquista um resultado bom ou resposta certa e passa a ser tratado com privilégios?


A Copa mobiliza o mundo pelo futebol, mas o que realmente nos conecta a ela são as emoções humanas que atravessam o jogo. E é justamente nesse ponto que ela se aproxima da escola: ambos são espaços onde pessoas convivem, se expõem, erram, aprendem e tentam, todos os dias, fazer o seu melhor, individual e coletivamente. E cada professor pode usar esse contexto para levar seus alunos a reflexões essenciais.

 

  

Trabalho em equipe: a lição do técnico e do time 


Falar de trabalho em equipe, por exemplo, vai muito além de dizer que “é importante colaborar”. Em um time de futebol, nem sempre há harmonia. Há disputas, egos, diferenças de ritmo, de estilo e de personalidade. Ainda assim, o time precisa funcionar. Não porque todos pensam igual, mas porque aprendem (ou são ensinados) a jogar juntos e reconhecer que as diferentes habilidades se complementam. Valorizar o colega e abrir-se para compartilhar lances, ou aprendizagens, é certamente uma competência necessária no campo e na escola.


A convivência não é automática. Na escola, muitas vezes esperamos que os trabalhos em grupo fluam naturalmente, como se bastasse reunir os estudantes. Mas não é assim que funciona. Há alunos que se sentem excluídos, outros que assumem tudo sozinhos, e aqueles que preferem se calar. Conduzir o trabalho em equipe, portanto, não é apenas propor atividades coletivas, é ensinar a escutar, negociar, respeitar o tempo do outro e lidar com diferenças e conflitos.


Nesse sentido, o professor é a peça-chave e se aproxima muito da figura do técnico. Não é quem joga, mas quem observa, orienta, reorganiza e, principalmente, acredita no potencial de cada integrante do grupo, inclusive quando o desempenho ainda não aparece. E cabe ao “técnico” harmonizar os diferentes perfis para extrair o melhor de cada um em prol do grupo.  Não é por acaso que o técnico também é chamado de “mister” ou “professor” ... Percebeu??

 

Diversidade: o que a escola pode aprender com o Mundial

 

Outro aspecto potente da Copa do Mundo é a diversidade. Em um mesmo torneio, encontramos diferentes culturas, línguas, histórias e formas de viver o futebol. Torcidas que cantam de maneiras distintas, gestos que carregam significados próprios, identidades que se expressam de múltiplas formas estão presentes em todos os momentos.


Esse encontro precisa nos lembrar que o mundo é maior do que aquilo que conhecemos e que precisa ser respeitado em todas essas diferenças. Não há nada que diga que os nossos costumes e culturas são melhores (ou piores) que os de outra nação. Então, por que não respeitar? Nenhum jogador deveria ter medo de entrar em campo e ser chamado de “macaco” ou ovacionado com “bananas”, assim como nenhum estudante deveria ter medo de sofrer bullying diariamente, por causa da cor da sua pele ou do seu nível social, no ambiente que mais deveria falar de respeito e aprendizagem.


A escola deve ser esse espaço de diversidade. Cada estudante carrega consigo uma história, um repertório, uma forma única de aprender e de se relacionar com o conhecimento e com todos ao redor. No entanto, nem sempre todos se sentem pertencentes.


Há alunos que não se veem representados, que não se sentem ouvidos, que acreditam que precisam se adaptar a um padrão para serem aceitos. E isso impacta diretamente sua relação com a aprendizagem.


Promover o respeito à diversidade não é apenas abordar o tema em datas comemorativas. É essencial construir, no cotidiano, um ambiente em que as diferenças não precisem ser toleradas, mas sejam efetivamente valorizadas. Quando cada aluno reconhece seu lugar e o lugar do outro, com dignidade para todos, o mundo todo ganha, e não é só uma taça.

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Inteligência emocional: o que jogadores e estudantes têm em comum

 

Mas talvez o maior aprendizado que a Copa pode inspirar na escola esteja no campo das emoções. Jogadores profissionais choram em campo. Sentem medo, ansiedade, frustração. Erram em momentos decisivos. E tudo isso acontece diante de milhares (às vezes milhões) de pessoas. Ainda assim, eles continuam. Levantam-se, tentam de novo, seguem jogando, analisando, aprendendo com os erros, persistindo até que o resultado mude.


Na escola, essas emoções também estão presentes, mas nem sempre são reconhecidas. Um aluno que não entrega uma atividade nem sempre é só irresponsável. Ele pode estar lidando com insegurança. Outro, que evita participar, pode ter medo de errar e ser ridicularizado. Há aqueles que se frustram em silêncio, que se comparam, que se sentem incapazes, mesmo quando têm potencial.


Quando a escola ignora essas emoções, ela corre o risco de enxergar apenas o desempenho, e não a pessoa por trás dele. Educar, nesse contexto, é também criar espaço para que os alunos compreendam o que sentem e se sintam respeitados. É ajudá-los a perceber que errar faz parte do processo e que ter medo não é um problema: paralisar-se por ele é! Compreender que a aprendizagem não acontece apesar das emoções, mas junto com elas, é um grande passo na maturidade e no crescimento. E isso vale para o campo de futebol tanto quanto para a sala de aula.

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Guia Prático de Educação Socioemocional — estratégias para ajudar os alunos a reconhecer e lidar com o que sentem, todos os dias, não só durante a Copa.

Ganhar não é só chegar em primeiro lugar


E uma última reflexão também pode ser praticada nesse momento: enquanto ganhar estiver ligado apenas ao primeiro lugar no pódio, ninguém ganha de verdade. A cultura que valoriza apenas quem chega em primeiro e não até onde cada equipe chega, dissemina um conceito muito perigoso: o de que só tem valor quem deixa todos os outros para trás. Quando as escolas conseguirem ensinar que ganhar está relacionado a superar-SE constantemente, buscando ser melhor a cada dia, mas não melhor QUE o outro e, sim, uma melhor versão de si mesmo, possivelmente seremos capazes de construir um futuro mais humano para todos.

 

O que fica depois que a Copa termina


A Copa termina. Os jogos acabam, os campeões são celebrados, e a rotina volta ao seu curso. Mas as emoções vividas, as histórias compartilhadas e os aprendizados construídos permanecem.


Talvez o maior convite que esse evento nos faça, como educadores, seja olhar para além do espetáculo e perceber o que ele revela sobre nós mesmos e sobre aqueles com quem convivemos diariamente.


Que tipo de “time” estamos formando na escola? Estamos preparando nossos alunos apenas para acertar ou também para lidar com o erro? Estamos ensinando conteúdos ou ajudando a formar pessoas capazes de conviver, respeitar e persistir? Estamos ensinando a valorizar cada conquista ou apenas aquelas que nos colocam acima dos outros?


No fim das contas, educar talvez seja isso: reconhecer que cada estudante entra em campo com suas próprias inseguranças e potências. E que aprender não é jogar sozinho, mas fazer parte de algo maior, onde há espaço para tentar, errar, recomeçar e, principalmente, continuar crescendo continuamente.


Antes de fechar o post


O que a Copa do Mundo pode ensinar sobre trabalho em equipe na escola?

Assim como um time só funciona quando cada jogador reconhece o valor do outro, o trabalho em grupo na escola exige que os alunos aprendam a escutar, negociar e lidar com diferenças, com o professor no papel de técnico: quem orienta e acredita no potencial de cada um.


Como a inteligência emocional dos jogadores pode ser um exemplo em sala de aula?

Jogadores sentem medo, frustração e ansiedade em campo e, ainda assim, seguem jogando. Levar essa reflexão para a escola ajuda os alunos a entender que errar faz parte do processo e que reconhecer as próprias emoções é tão importante quanto o desempenho.


Por que falar de diversidade a partir da Copa do Mundo?

A Copa reúne culturas, línguas e formas de viver o futebol muito diferentes entre si, o que a torna um bom ponto de partida para discutir respeito às diferenças na escola, não apenas em datas comemorativas, mas no cotidiano.

 

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Amanda Helena é jornalista e professora, com licenciatura em Letras e especialização em Linguística aplicada à Educação, Neurolinguística e Produção e Revisão de Textos. Atualmente, é Analista de Operações Sênior no Grupo Vitae Brasil.


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