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Comportamentos desafiadores na escola: o que o estudante está tentando comunicar?

Foto do escritor: Tatiana Tozeto Bertti
Tatiana Tozeto Bertti
há 19 horas
7 min de leitura
Professora conversa com estudante em sala de aula, agachada ao lado da carteira
Imagem: Magnific

Em resumo: Comportamentos desafiadores na escola, como recusa, interrupções e conflitos, podem sinalizar habilidades que o estudante ainda está desenvolvendo, e não apenas falta de vontade. Segundo a TALIS 2024, professores brasileiros dos anos finais do Ensino Fundamental dedicam 21% do tempo de aula à manutenção da ordem, contra 15% na média da OCDE. Observar antes de corrigir e ampliar o repertório de manejo ajuda a proteger esse tempo de aprendizagem.


Recusa, interrupções e conflitos fazem parte da rotina escolar. Com apoio de Ross Greene, Vygotsky, Goleman e dos dados da TALIS 2024, o artigo propõe observar antes de corrigir e mostra como esse olhar ajuda a proteger o tempo de aprendizagem.


Há situações que fazem parte da rotina de qualquer educador: uma criança que chora diante de uma mudança, um estudante que se recusa a realizar uma atividade, uma discussão que começa pequena e ganha proporções maiores, alguém que interrompe constantemente a aula ou simplesmente se fecha e deixa de participar.


Essa mudança parece pequena, mas altera profundamente a forma como o educador observa, interpreta e intervém, e isso não significa deixar de estabelecer limites, ignorar comportamentos inadequados ou transformar a escola em um espaço sem regras. Significa reconhecer que educar também envolve compreender o que acontece por trás daquilo que é visível.


E esse é um ponto de encontro entre diferentes pensadores da Educação e da Psicologia: o comportamento não acontece isoladamente, ele está inserido em uma relação, em um contexto, em uma história e em determinadas condições de aprendizagem.


Antes de corrigir, observar: o que está por trás do comportamento

Durante muito tempo, determinados comportamentos foram interpretados principalmente pela intenção atribuída ao estudante: "ele não quer", "está fazendo de propósito", "quer chamar atenção", "não respeita limites".


O problema dessa interpretação é que ela pode encerrar a investigação antes mesmo de começarmos.


Ross Greene, ao discutir crianças e adolescentes com comportamentos desafiadores, propõe uma mudança importante de perspectiva: em vez de perguntar apenas por que o estudante não quer colaborar, precisamos considerar quais habilidades ou condições podem estar dificultando que ele consiga fazê-lo.


Em Lost at School, publicado em 2008, Greene estrutura sua abordagem em torno da identificação de habilidades ainda não desenvolvidas e de problemas não resolvidos, propondo que adultos e estudantes trabalhem colaborativamente sobre essas dificuldades.


É uma mudança de lente, quando o professor vê apenas "recusa", pode pensar em consequência, mas quando percebe também a dificuldade que antecede aquela recusa, começa a pensar em suporte, e quando observa que a mesma situação se repete em determinados momentos, passa a investigar padrões, e quando identifica padrões, deixa de agir somente no improviso: o olhar pedagógico se torna investigativo e o impacto também aparece no tempo de aprendizagem.


Quanto tempo de aula o comportamento consome: o que mostra a TALIS 2024

Essa discussão não é apenas sobre disciplina ou convivência. Ela também envolve uma questão concreta: quanto do tempo destinado ao ensino está sendo consumido pela necessidade de administrar comportamentos e reorganizar a turma?


Os dados mais recentes da TALIS 2024, pesquisa internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ajudam a dimensionar esse desafio no Brasil.


Entre os professores brasileiros dos anos finais do Ensino Fundamental, 21% do tempo de aula é relatado como destinado à manutenção da ordem em sala. Além disso, 44% afirmam perder bastante tempo porque os estudantes interrompem as aulas. Para comparação, a média da OCDE é de 15% do tempo de aula dedicado à manutenção da ordem e 18% de professores que relatam perder bastante tempo com interrupções. Em uma aula de 50 minutos, 21% correspondem a aproximadamente 10 minutos e 30 segundos.


O dado evidencia uma questão importante: quando as demandas comportamentais se tornam frequentes, uma parcela significativa do tempo que poderia ser dedicada à explicação, à interação, à prática e à aprendizagem passa a ser utilizada para recuperar as condições necessárias para ensinar.


E existe ainda outro dado relevante: na TALIS 2024, 64% dos professores brasileiros apontam a manutenção da disciplina em sala como uma fonte de estresse, ou seja, estamos diante de uma questão que atravessa dois lados da mesma relação: o comportamento impacta o tempo de aprendizagem dos estudantes e as condições de trabalho dos professores.


Por isso, pensar em estratégias para lidar com comportamentos desafiadores é pensar em proteger o tempo pedagógico, reduzir situações recorrentes de conflito e criar condições para que professor e estudante consigam se dedicar ao que a escola existe para promover: aprendizagem e desenvolvimento.


Autorregulação também se aprende na relação com o outro

Lev Vygotsky nos ajuda a compreender outro aspecto essencial: o desenvolvimento não acontece de maneira isolada. A aprendizagem é construída nas relações e mediada socialmente. Nessa perspectiva, aquilo que o estudante ainda não consegue realizar sozinho pode ser desenvolvido com a mediação de alguém mais experiente.


Isso nos convida a olhar para a autorregulação, a comunicação, a flexibilidade, a resolução de conflitos e tantas outras competências não como características simplesmente presentes ou ausentes, mas como processos que podem estar em desenvolvimento.

Talvez por isso uma intervenção eficaz nem sempre comece com uma ordem, e sim com uma pergunta: O que está difícil para você neste momento?


Nem todo comportamento pede uma resposta imediata

Existe uma expectativa muito presente na escola de que o adulto precisa resolver imediatamente aquilo que está acontecendo. Quando estamos diante de uma situação de grande ativação emocional, insistir imediatamente em explicações, argumentos ou cobranças pode ampliar o confronto em vez de produzir aprendizagem.


Daniel Goleman, em Inteligência Emocional (1996), contribuiu para popularizar a compreensão de que reconhecer e lidar com emoções constitui um conjunto de competências que pode ser desenvolvido. E aquilo que queremos que o estudante faça — reconhecer o que sente, esperar, pedir ajuda, reorganizar-se, conversar depois de um conflito — precisa, muitas vezes, ser ensinado.


Não podemos exigir como comportamento consolidado aquilo que ainda precisa ser construído como habilidade. É justamente nesse ponto que teoria e cotidiano precisam se encontrar.


Ampliar o repertório para responder a cada situação

Não existe um comportamento desafiador universal. Existem estudantes, contextos, relações, necessidades, histórias e habilidades em diferentes processos de desenvolvimento. Por isso, o trabalho do educador não é encontrar uma resposta pronta para todos os casos, é ampliar seu repertório para conseguir escolher respostas mais conscientes diante de cada situação.


Para transformar essa mudança de olhar em possibilidades concretas para o cotidiano, elaboramos o Guia de Manejo para Comportamentos Desafiadores.


O material reúne 15 possibilidades de manejo, organizadas para diferentes etapas da escolarização — da Educação Infantil ao Ensino Médio e apresenta estratégias que dialogam com diferentes perspectivas da Educação e da Psicologia. O guia também inclui materiais visuais para uso cotidiano, como apoio para rotina, identificação de emoções, combinados e autorregulação.


Às vezes, uma pequena mudança na forma de olhar já abre espaço para uma grande mudança na forma de agir.



Para refletir

Quando conseguimos enxergar além do comportamento, talvez descubramos que aquilo que parecia apenas um problema também pode ser uma oportunidade de ensinar uma habilidade, fortalecer um vínculo e construir autonomia.


Guia de Manejo para Comportamentos Desafiadores

Leve novas possibilidades para sua prática

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Faz Responde


O que são comportamentos desafiadores na escola?

São situações recorrentes que dificultam a participação do estudante e o andamento da aula, como recusa em realizar atividades, interrupções frequentes, choro diante de mudanças, conflitos entre colegas e isolamento. Na perspectiva do psicólogo Ross Greene, autor de Lost at School (2008), esses comportamentos podem sinalizar habilidades ainda em desenvolvimento ou problemas não resolvidos, que adultos e estudantes podem enfrentar de forma colaborativa.


Quanto tempo de aula os professores brasileiros dedicam à manutenção da ordem?

Segundo a TALIS 2024, pesquisa internacional da OCDE com professores dos anos finais do Ensino Fundamental, os docentes brasileiros relatam dedicar 21% do tempo de aula à manutenção da ordem, contra 15% na média da OCDE. Em uma aula de 50 minutos, isso equivale a cerca de 10 minutos e 30 segundos. A mesma pesquisa mostra que 44% dos professores brasileiros afirmam perder bastante tempo com interrupções dos estudantes (média da OCDE: 18%) e 64% apontam a manutenção da disciplina como fonte de estresse.


Por que nem sempre é indicado intervir imediatamente diante de um comportamento desafiador?

Em momentos de grande ativação emocional, insistir em explicações, argumentos ou cobranças pode ampliar o confronto. Uma alternativa é ajudar o estudante a se reorganizar primeiro e retomar a conversa depois. Habilidades como reconhecer o que sente, esperar e pedir ajuda podem ser ensinadas, como mostram as contribuições de Daniel Goleman sobre inteligência emocional e de Lev Vygotsky sobre a aprendizagem mediada pelas relações.


Como o professor pode começar a mudar a forma de lidar com comportamentos desafiadores?

Um primeiro passo é observar antes de corrigir: identificar em quais momentos a situação se repete, o que acontece antes dela e qual habilidade pode estar faltando ao estudante naquele contexto. Uma pergunta simples, como “o que está difícil para você neste momento?”, ajuda a deslocar a intervenção da punição para o suporte, sem abrir mão de limites e combinados.


Onde encontrar estratégias práticas de manejo para a sala de aula?

A Faz Educação disponibiliza gratuitamente o Guia de Manejo para Comportamentos Desafiadores, com 15 possibilidades de manejo organizadas da Educação Infantil ao Ensino Médio. O material dialoga com diferentes perspectivas da Educação e da Psicologia e inclui recursos visuais para rotina, identificação de emoções, combinados e autorregulação.



Referências

  • GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.


  • GREENE, Ross W. Lost at school: why our kids with behavioral challenges are falling through the cracks and how we can help them. New York: Scribner, 2008.


  • OECD. Results from TALIS 2024: the state of teaching. Paris: OECD Publishing, 2025.


  • VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

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Autora Glaucia Vieira S Souza

Tatiana Tozeto Bertti

Pedagoga e Especialista em Educação Especial e Inclusiva,

com mais de 10 anos de experiência na área educacional. Pós-graduada em Neuropsicopedagogia Clínica e Formadora em ABA.


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