Por que está tão difícil renovar a carreira docente?


Todo professor em sala é, mesmo sem perceber, a principal vitrine da carreira docente. É observando a rotina dele, e a forma como ele é tratado, que um estudante forma a primeira imagem da profissão. Essa carreira, no entanto, está envelhecendo mais rápido do que se renova. Em 2015, o ensino médio tinha quase um professor de até 24 anos para cada docente com 60 anos ou mais. Em 2025, essa relação caiu para um para três.
O número é da segunda edição do estudo Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp, que alerta para o risco de faltarem docentes para substituir quem se aposenta. Quando se fala em apagão de professores, o debate costuma girar em torno de como atrair mais jovens para as licenciaturas, mas a atenção deve incluir também o que acontece depois da formatura: as condições de trabalho, o acolhimento de quem começa e o reconhecimento de quem já ensina. Renovar a carreira exige olhar para as duas pontas: quem chega e quem consegue ficar.
Sou filha de professora e acompanhei de perto a rotina da minha mãe, que lecionou na Educação Infantil por 20 anos. Eu via o trabalho que continuava em casa, o tempo dedicado à preparação das aulas e o envolvimento com a profissão em meio a muitas demandas, da organização da festa junina às semanas temáticas do calendário escolar. No fim do dia, mesmo cansada, ela parecia satisfeita e sempre demonstrou amar o que fazia.
Essa convivência influenciou a forma como passei a olhar para a docência e a respeitar os professores que fizeram parte da minha trajetória. Por trás de cada aula existe um trabalho que quem acompanha a escola de fora nem sempre vê. Hoje, ao ler os dados sobre a carreira docente, reconheço neles o que vi em casa: a formação que ensinar exige, as responsabilidades que se acumulam e as condições de que um profissional precisa para seguir fazendo o seu trabalho.
A renovação começa antes da sala de aula
Para medir o desequilíbrio, o Semesp criou a Taxa de Renovação Docente, que compara o número de professores com até 24 anos com o de docentes com 60 anos ou mais. No ensino médio, o indicador caiu a um terço em dez anos. Mantidas as tendências atuais, o estudo projeta um jovem para cada seis professores perto da aposentadoria em 2040.

Quem atua nas redes municipais pode se perguntar se isso chega à Educação Infantil e aos anos iniciais, já que o estudo trata do ensino médio. O sinal mais próximo está na formação: o número de formados em Pedagogia caiu 14,8% entre 2015 e 2024. As licenciaturas, mesmo recebendo hoje mais estudantes do que há dez anos, formam menos professores.
Em algumas áreas, quem se forma escolhe outros caminhos. Em Educação Física, o número de formados no bacharelado mais que dobrou na última década, enquanto os concluintes da licenciatura caíram mais de 40%. Para o Semesp, o desafio vai além de atrair estudantes para as licenciaturas e inclui tornar a carreira atrativa o bastante para que novos professores ingressem e permaneçam na educação básica.
A imagem da profissão se forma no cotidiano da escola
Quem está em sala conhece bem as queixas: a falta de respeito de parte dos alunos, a cobrança por resultados, o salário que não acompanha a responsabilidade. A TALIS 2024, maior pesquisa internacional com docentes, conduzida no Brasil pelo Inep, confirma parte desse retrato. O estresse com o trabalho cresceu desde 2018, o impacto da docência na saúde mental aparece acima da média dos países da OCDE e uma parte maior da aula vai para manter a ordem em sala. Na mesma pesquisa, só 14% dos professores acreditam que a profissão é valorizada pela sociedade.
Esses indicadores descrevem condições de trabalho, e a escolha de cada jovem depende de muitos fatores. Ainda assim, é essa rotina que o estudante acompanha de perto, da carteira, ao formar a sua ideia sobre a profissão.
Os primeiros anos decidem quem fica
Quem já foi professor lembra do primeiro ano: a turma que testa limites, o planejamento que não cabe no tempo, a dúvida sobre ter feito a escolha certa. É também nessa fase que a vontade de desistir aparece com mais força. A TALIS confirma o que muita escola já percebe: são os professores mais jovens que mais pensam em deixar a carreira.
Atrair e manter são partes do mesmo desafio. Um jovem que conclui a licenciatura e desiste nos primeiros anos não chega a renovar o quadro. A saída dele também é vista pelos estudantes, pelos colegas e pelas famílias. A forma como a rede recebe quem chega mostra, para dentro e para fora da escola, quanto a profissão é valorizada.
Os dados brasileiros da TALIS trazem um avanço nesse ponto. As escolas aprenderam a receber melhor quem chega, e os programas de integração se espalharam nos últimos anos. Falta ainda a companhia depois da recepção: o número de iniciantes com um mentor designado não saiu do lugar. A recepção é o primeiro passo, a permanência depende do que vem nos meses seguintes, com alguém para planejar junto, tirar dúvidas e conversar sobre a turma.
A escola tem, dentro de casa, quem possa fazer esse papel. No ensino médio, o número de professores com 60 anos ou mais dobrou em dez anos. Para eles, acompanhar um iniciante também é uma forma de reconhecimento, porque o que sabem passa a ter valor para a rede.
O acolhimento rende mais quando vem junto com condições para ficar. Vínculos instáveis, turmas desafiadoras sem apoio e falta de tempo para planejar tendem a pesar mais sobre quem ainda constrói repertório e segurança em sala. No ensino médio público, quase metade dos professores tem contrato temporário, e o Semesp associa esse tipo de vínculo a maior rotatividade. Para o estudante, isso tem rosto: é o professor de quem ele gostava e que não volta no ano seguinte porque o contrato terminou.
Atrair e manter professores é uma responsabilidade coletiva
Nenhuma escola resolve sozinha o desafio da renovação docente. Ele passa por três frentes.
Políticas públicas Carreira, remuneração e estabilidade dependem de decisões das diferentes esferas de governo, que dividem a responsabilidade pela educação básica. Hoje, um professor do ensino médio ganha, em média, cerca de 80% do que recebe um trabalhador com ensino superior. Entre os caminhos para recuperar a atratividade da carreira, o Semesp aponta remuneração competitiva, melhores condições de trabalho, estabilidade e perspectivas de desenvolvimento profissional.
Sociedade e famílias O respeito ao professor também se constrói fora da escola: em casa, nas conversas sobre a profissão e na forma como ela aparece na mídia e nas redes. A população já reconhece o problema. Na pesquisa O que a população pensa sobre a Educação 2026, com 20 mil entrevistas, 56% discordam que os professores sejam valorizados, e a melhoria de salários e condições de trabalho docente é a prioridade mais citada para a educação. O passo seguinte é levar essa percepção para o dia a dia, no respeito ao professor dentro e fora da sala.
Escolas e redes de ensino No cotidiano das redes de ensino, há medidas que podem fazer diferença:
Acolher quem chega com um colega de referência, que acompanhe o iniciante nos primeiros meses, além da recepção inicial.
Reservar tempo na jornada para planejar em dupla e trocar experiências, para que a formação continuada parta da rotina real da escola.
Proteger o tempo de aula, com apoio da coordenação na gestão das turmas mais desafiadoras e na relação com as famílias.
Dar visibilidade ao trabalho de quem ensina, compartilhando projetos e boas práticas com a comunidade escolar.
A renovação se constrói ao longo do ano
Para atrair e manter professores, a docência precisa ser uma escolha profissional viável, com condições para ensinar e perspectivas de crescimento. Quem decide seguir a carreira observa se isso existe na prática, nas escolas por onde passou e nos primeiros anos em sala. O Dia do Professor é uma boa data para homenagens, mas a renovação da carreira se constrói nos demais dias do ano letivo, e é uma tarefa coletiva.
Para refletir
Na sua rede, como os professores que estão começando são recebidos nos primeiros meses? E você, que está em sala: o que gostaria que seus alunos percebessem sobre a sua profissão?
Referências
INSTITUTO SEMESP. Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil. 2ª ed. 2026. Disponível em: https://www.semesp.org.br/pesquisas/apagao-dos-professores-o-desafio-da-renovacao-dos-professores-no-brasil/
OCDE. Results from TALIS 2024: Country notes: Brazil. Paris: OECD Publishing, 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024-country-notes_e127f9e2-en/brazil_1e93d3b5-en.html
INSTITUTO IDEIA; TODOS PELA EDUCAÇÃO et al. O que a população pensa sobre a Educação 2026. Agosto de 2026. Repercutido em: PORVIR. Para brasileiros, melhorar a educação passa por valorizar e reconhecer professores. Disponível em: https://porvir.org/pesquisa-melhorar-educacao-valorizar-professores/
Faz Responde
Por que está difícil renovar a carreira docente?
O quadro de professores envelhece mais rápido do que se renova. No ensino médio, segundo o Instituto Semesp, a relação entre professores com até 24 anos e docentes com 60 anos ou mais caiu de 0,95 em 2015 para 0,32 em 2025, e o número de concluintes de licenciatura caiu 13,5% entre 2015 e 2024. Remuneração, vínculos de trabalho, valorização e o acolhimento nos primeiros anos de carreira estão entre os fatores que pesam na atratividade e na permanência.
O que é o apagão de professores?
É a expressão usada para o risco de faltar professores nas escolas brasileiras nos próximos anos, diante do envelhecimento do quadro e da baixa entrada de jovens na carreira. A segunda edição do estudo do Instituto Semesp foca no ensino médio.
O que é a Taxa de Renovação Docente?
É um indicador criado pelo Instituto Semesp que divide o número de docentes com até 24 anos pelo número de docentes com 60 anos ou mais. Um valor próximo de 1 indica equilíbrio entre quem entra e quem se aproxima da aposentadoria. Mantidas as tendências atuais, o estudo projeta uma taxa de 0,17 no ensino médio em 2040, cerca de um jovem para cada seis docentes com 60 anos ou mais.
Os dados do apagão de professores valem para as redes municipais?
O estudo do Semesp analisa o ensino médio, etapa concentrada nas redes estaduais. Para as redes municipais, o dado mais próximo é o de Pedagogia, formação associada à Educação Infantil e aos anos iniciais. O número de concluintes do curso caiu 14,8% entre 2015 e 2024. Entre os concluintes com até 24 anos, a queda foi de 23,3%.
Por que os primeiros anos de carreira importam para a renovação docente?
Nos países da OCDE, dois em cada dez professores com menos de 30 anos relatam a intenção de deixar o ensino nos cinco anos seguintes, cinco pontos percentuais a mais que os colegas entre 30 e 49 anos, segundo a TALIS 2024. No Brasil, entre professores dos anos finais do Ensino Fundamental, a participação em programas de integração cresceu 28 pontos percentuais entre 2018 e 2024, enquanto a parcela de iniciantes com mentor designado ficou estável.
Como valorizar os professores além do Dia do Professor?
Na pesquisa O que a população pensa sobre a Educação 2026, 53% dos brasileiros apontam a melhoria de salários e condições de trabalho dos professores como prioridade da educação, e 37% citam a melhoria da formação docente. Nas escolas, acolher os iniciantes, reservar tempo na jornada para planejamento coletivo e dar visibilidade ao trabalho docente são formas de reconhecimento no dia a dia.

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Glaucia Vieira S Souza
Atua na área de marketing e comunicação educacional. Dedica-se ao estudo de dados, tendências e desafios que ajudam a compreender os caminhos da educação pública no Brasil.



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