Tecnologia na Educação Infantil sem tela: muito além do tablet e do aplicativo


Em sintonia com o Agosto Verde, mês dedicado à primeira infância, um convite para repensar o lugar da tecnologia nos primeiros anos de vida, muito além das telas.
Quando pensamos em tecnologia na Educação Infantil, qual é a primeira imagem que vem à nossa cabeça? Talvez seja uma criança diante de um tablet, um aplicativo educativo ou um vídeo. Mas e se tecnologia, na infância, pudesse significar muito mais do que isso?
Uma criança seguindo pistas para encontrar um objeto, organizando imagens para reconstruir uma história, criando um percurso para um colega ou registrando uma descoberta por meio de uma fotografia. Todas essas experiências podem envolver conceitos relacionados à tecnologia e à Computação, e muitas delas acontecem sem que uma tela sequer seja utilizada.
Essa perspectiva nos convida a olhar para a tecnologia não como substituta das experiências próprias da infância, mas como uma possibilidade de ampliá-las.
A infância vem primeiro
As tecnologias digitais fazem parte do cotidiano das crianças e estão cada vez mais presentes também nos espaços educativos. Diante dessa realidade, o desafio não está simplesmente em decidir se devemos ou não utilizar tecnologia, mas em compreender qual lugar ela pode ocupar na experiência infantil. Documentos de referência de redes municipais, como o produzido pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (2015), já discutem esse uso há quase uma década, o que mostra que o tema não é novidade para a gestão pública.
A Base Nacional Comum Curricular estabelece as interações e a brincadeira como eixos estruturantes da Educação Infantil e assegura às crianças os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se (BRASIL, 2017). Isso significa que qualquer proposta com tecnologia precisa dialogar com esses princípios, reconhecendo a criança como sujeito ativo, capaz de participar e pertencer ao próprio processo de aprendizagem (KISHIMOTO; OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2013).
Antes de perguntar “qual recurso tecnológico podemos utilizar?”, talvez seja mais importante perguntar:
“Que experiência queremos proporcionar às crianças e como a tecnologia pode contribuir para isso?”
Essa mudança de pergunta transforma o planejamento.
Tecnologia não é sinônimo de tela
Trabalhar tecnologia na Educação Infantil não significa necessariamente colocar uma criança diante de um dispositivo. O pensamento computacional também pode ser desenvolvido por meio do corpo, de objetos, histórias, músicas, jogos, desenhos e brincadeiras.
Uma criança que organiza objetos por cor, forma ou tamanho está percebendo padrões. Quando organiza imagens para reconstruir uma história, está trabalhando sequenciamento; quando cria um caminho para que um colega chegue até determinado lugar, está elaborando uma sequência de instruções; e quando percebe que uma tarefa pode ser dividida em pequenas etapas, está experimentando uma forma de decomposição de problemas.
A BNCC Computação reconhece essas possibilidades ao propor, para a Educação Infantil, experiências relacionadas à identificação de padrões, à criação de algoritmos e à resolução de problemas, incluindo propostas que podem acontecer de maneira desplugada (BRASIL, 2022). O termo computação desplugada, cunhado por Bell, Witten e Fellows (2015), descreve justamente essa possibilidade: aprender lógica computacional por meio de atividades concretas, sem depender de um computador. Miguel (2023) também destaca esse potencial para trabalhar conceitos computacionais por meio de experiências lúdicas e significativas.
Podemos criar um circuito no chão e desafiar as crianças a encontrar diferentes caminhos.
Podemos pedir que uma criança dê instruções para outra chegar até um objeto.
Podemos organizar uma sequência de sons e descobrir padrões.
No fundo, um algoritmo é apenas uma sequência de passos para chegar a um resultado. Por isso, algoritmo pode ser uma receita, pode ser um caminho, uma dança, uma história ou uma brincadeira.
E tudo isso pode acontecer sem uma tela.
Publicações voltadas à prática docente, como a de Sestari (2025) na Nova Escola, reúnem sugestões nessa mesma linha e mostram que essas atividades já fazem parte do repertório de muitas professoras brasileiras. Quando a tecnologia amplia, não substitui.
Se a experiência concreta é tão importante, qual é então o lugar das tecnologias digitais?
Talvez uma boa resposta esteja na palavra ampliar.
Imagine uma turma que passou uma manhã explorando os sons do ambiente. As crianças ouviram diferentes ruídos, criaram ritmos e produziram sons com objetos. Depois dessa experiência, um tablet pode entrar em cena para que elas gravem esses sons e criem uma composição coletiva.
Nesse caso, a tecnologia não substituiu a experiência, ela ampliou aquilo que as crianças já haviam vivido
O mesmo pode acontecer em diferentes situações: as crianças podem observar uma planta e fotografar suas transformações, ou criar uma história com desenhos e depois gravar suas próprias vozes para narrá-la. Podem também explorar uma obra de arte e produzir uma releitura digital, ou construir um percurso no chão e depois programar um robô para percorrê-lo.
O movimento pode ser:
É nesse percurso que a tecnologia ganha sentido pedagógico, da criança consumidora à criança autora.
Um dos grandes potenciais das tecnologias digitais está na possibilidade de transformar a criança em autora.
Em vez de apenas assistir a uma história, ela pode criar uma; em vez de apenas observar uma imagem, pode produzir uma fotografia; em vez de apenas ouvir uma música, pode experimentar sons; em vez de apenas jogar, pode construir regras, percursos e soluções.
Fleer (2016) destaca a importância de compreender as tecnologias dentro dos contextos de aprendizagem e exploração das crianças. Nessa perspectiva, o recurso digital pode se tornar mais uma linguagem para que elas expressem ideias, façam escolhas e compartilhem suas descobertas.
A pergunta deixa de ser apenas:
“O que posso assistir?”
e passa a ser:
“O que posso criar com isso?”
Essa mudança, embora pareça pequena, representa uma diferença importante na relação da criança com a cultura digital.
O professor continua sendo essencial
Nenhum equipamento, aplicativo ou plataforma possui valor pedagógico simplesmente por estar presente na sala. A tecnologia não planeja, não observa, não escuta as hipóteses das crianças e não percebe aquele momento em que uma pergunta pode transformar uma brincadeira em uma investigação, quem faz isso é o professor.
É a mediação docente que transforma um recurso em uma experiência educativa. Por isso, conhecer uma ferramenta é importante, mas compreender quando, por que e para quê utilizá-la é ainda mais importante.
Uma fotografia pode se transformar em documentação pedagógica; um áudio pode registrar uma narrativa; um vídeo pode ser revisitado pelas crianças para que percebam o caminho percorrido em uma investigação. A tecnologia, nesse sentido, pode ajudar a tornar visíveis processos de aprendizagem e ampliar as possibilidades de expressão infantil.
Material gratuito: Para apoiar essa mediação com atividades prontas alinhadas à BNCC, baixe gratuitamente o Guia de Educação Socioemocional na Educação Infantil.
Cuidar também faz parte da cultura digital
Falar sobre tecnologia na infância também significa falar sobre cuidado.
Cuidado com o tempo de exposição às telas
Cuidado com a saúde
Cuidado com a privacidade
Cuidado com a imagem
Cuidado com aquilo que acessamos e compartilhamos.
A cultura digital não envolve apenas saber utilizar dispositivos. Envolve também aprender a conviver em um mundo conectado de maneira segura, ética e responsável.
Uma pergunta como “podemos compartilhar a foto de um colega sem perguntar para ele?” pode iniciar uma conversa sobre respeito e privacidade, assim como uma situação fictícia sobre alguém desconhecido pedindo informações pessoais pode abrir espaço para conversar sobre segurança.
Ao mesmo tempo, é fundamental preservar aquilo que nenhuma tecnologia substitui: o movimento, o contato com diferentes materiais, a exploração dos espaços, as relações presenciais e o brincar.
A tecnologia deve fazer parte da infância sem ocupar o lugar da própria infância.
Muito além da tela
Talvez o maior desafio da Educação Infantil na cultura digital não seja ensinar as crianças a utilizar tecnologias. Elas crescerão em um mundo no qual essas ferramentas estarão cada vez mais presentes, e o desafio é ajudá-las a construir uma relação criativa, crítica, segura e humana com esse universo.
Isso significa garantir que a tecnologia não substitua o corpo pelo dispositivo, a conversa pelo aplicativo, a brincadeira pela tela ou a exploração concreta pela experiência virtual. Significa permitir que a criança toque, construa, erre, invente, imagine, movimente-se, converse e, também, descubra como uma tecnologia pode ajudá-la a ir além.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quanto tempo a criança ficou diante da tela?”
Nem apenas:
“Qual tecnologia vamos utilizar?”
Mas:
“O que essa experiência permitiu que a criança fizesse, pensasse, criasse, descobrisse ou compartilhasse?”
Quando utilizada com intencionalidade, a tecnologia pode ser uma linguagem a mais para a infância. Pode ajudar uma criança a contar uma história, registrar uma descoberta, criar um som, encontrar um caminho, resolver um problema ou compartilhar aquilo que imaginou, mas ela não precisa ocupar o centro.
Na Educação Infantil, a tecnologia não deve substituir a infância, deve ajudar a ampliar as possibilidades de vivê-la.
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro significado de ir muito além da tela.
Material gratuito: Essa é também uma das tendências apontadas para os próximos anos: confira os 10 movimentos que vão pautar os próximos ciclos da educação.
Faz Responde
O que é computação desplugada?
É uma abordagem que ensina conceitos de lógica computacional, como padrões, sequências e algoritmos, sem usar computadores ou telas. Na Educação Infantil, ela acontece por meio do corpo, de objetos, jogos e brincadeiras.
Crianças pequenas precisam de telas para desenvolver pensamento computacional?
Não. Habilidades como reconhecer padrões, organizar sequências e criar instruções passo a passo podem ser desenvolvidas em atividades concretas, como organizar objetos, montar percursos no chão ou reconstruir uma história com imagens.
O que a BNCC Computação propõe para a Educação Infantil?
A BNCC Computação (BRASIL, 2022) propõe experiências relacionadas à identificação de padrões, à criação de algoritmos e à resolução de problemas, incluindo atividades desplugadas, sem depender de dispositivos digitais.
Qual o papel do professor no uso de tecnologia na Educação Infantil?
É o professor quem transforma um recurso, digital ou não, em experiência educativa. Nenhum aplicativo ou equipamento tem valor pedagógico por si só: é a mediação docente que observa, planeja e dá sentido ao uso da tecnologia.
O que é o Agosto Verde?
O Agosto Verde é o mês de mobilização nacional dedicado à primeira infância, instituído pela Lei nº 14.617/2023, com foco nos cuidados e no desenvolvimento integral de crianças de 0 a 6 anos.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
BRASIL. Ministério da Educação. Computação: complemento à BNCC. Brasília: MEC, 2022.
BELL, Tim; WITTEN, Ian H.; FELLOWS, Mike. Computer Science Unplugged. 2015.
FLEER, Marilyn. Technologies for children. Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida; OLIVEIRA-FORMOSINHO, Júlia. Em busca da pedagogia da infância: pertencer e participar. Porto Alegre: Penso, 2013.
MIGUEL, Carolina Costa. Tecnologia na Educação Infantil: letramento digital e computação desplugada. Cadernos CEDES, Campinas, v. 43, n. 120, p. 60-72, maio/ago. 2023.
SÃO PAULO (SP). Secretaria Municipal de Educação. O uso da tecnologia e da linguagem midiática na Educação Infantil. São Paulo: SME/DOT, 2015.
SESTARI, Paula. 11 sugestões para usar tecnologia na Educação Infantil. Nova Escola, 2025.
SILVA, Leiciano Costa da et al. Tecnologias Digitais na Educação Infantil: Mediação Pedagógica, Brincadeira e Desenvolvimento Integral. Revista Tópicos, v. 4, n. 35, p. 1-24, 2026. DOI: 10.70773/revistatopicos/784685594.

Autora:
Thais Aparecida Pereira Batista é pedagoga, especializada em Neuropsicopedagogia e atualmente cursa pós-graduação em
Mídias Tecnológicas Digitais e Cultura Maker na Educação.
Atua há 7 anos na área da educação, com experiência em diferentes segmentos e contextos pedagógicos. Atualmente, trabalha com tecnologias educacionais, desenvolvendo propostas que articulam inovação, recursos digitais e metodologias ativas, com foco em potencializar os processos de ensino e aprendizagem




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